No peito e na alma !

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segunda-feira, 15 de outubro de 2018

“Meu sonho é ter a minha cara no muro do CT”, por Diego Pituca


Em depoimento ao DIÁRIO, o volante Diego Pituca relembra não ao Santos, momentos difíceis da carreira e revela o sonho de ser sua imagem no muro do CT Rei Pelé (Crédito: Ivan Storti/SantosFC)

Desde os sete anos eu tento entrar no CT Rei Pelé. Minha tia mora no canal dois e sempre que eu vinha pra cá eu tentava ver o treino subindo nas árvores. Eu não fui sempre santista, mas essa história deixa pra lá. O importante é que meu tio colocou na cabeça que me faria santista e me deu tanta camisa do Santos que eu decidi, com 11 anos, que torceria pelo Peixe.

Não era fácil ser santista no interior. Um de cada 20 torcia pro Santos, era praticamente sozinho. Diziam que não tinha torcida, mas demos a resposta quando fomos Campeões Brasileiros em 2002. Agora está mais fácil, não sei de onde estão saindo, mas tem bastante santista. Eu mesmo já dei camisa pra todo mundo na minha cidade e estão todos virando santistas por minha causa.

Eu comecei a jogar bola na rua mesmo, nos golzinhos de chinelo. Perdi as contas de quantos chinelos já esqueci no golzinho, até o dia que minha mãe me proibiu de ir jogar bola de chinelo. Já ia sem pra não perder. Não tinha nem mais a tampa do dedão de tanto que jogava. Sempre perseguindo um lugar onde jogar. Avisavam que tinha gente no terrão ou no campinho e eu ia correndo pra lá.


Comecei na minha cidade, Mogi Guaçu, e joguei dos 10 aos 17 anos no Guaçuano. No final da categoria Sub-17 fui para o Itapirense, de Itapira, cidade vizinha. Nessa época eu não ficava alojado, ia e voltava todo dia, pois ainda não tinha concluído os estudos. Eu e três amigos fazíamos uma vaquinha pra ir com o meu pai e seu Corcel Indomável, como meus amigos costumavam chamar.

O apelido era porque o carro perdia o freio com frequência. Uma vez, em uma descida na volta pra Mogi, o Corcel perdeu o freio e lá embaixo havia uma curva e, ao lado, um rio. Pensei que não ia dar, que íamos cair no rio, mas meu pai conseguiu fazer a curva.

Venho de uma família humilde e se não fossem meus pais, eu não estaria aqui hoje. Já pensei em desistir muitas vezes, quem nunca? Ficava sem receber, sem comer… Meu pai chegou a pegar dinheiro emprestado, às vezes até o carro emprestado com os amigos, pra poder me levar aos treinos. Eles tiravam até de onde comer pra poder me dar uma chuteira.

Herdei o apelido dele: Pituca. Ele era um super pai, mas eu odiava que me chamassem de Pituquinha. Ficava puto, mas não tinha jeito. Consegui colocar o Diego na frente e ficou um pouco melhor. Agora já acostumei, se você perguntar pelo Diego ninguém vai saber quem é. O apelido, inclusive, é um mistério. Meu avô já era chamado assim e passou pro meu pai, mas nenhum dos dois soube me explicar o porquê.


A partir dos 18 anos fiquei alojado em Itapira. Era uma casa com 30 meninos, todos em busca do mesmo sonho. Até hoje ainda tenho contato com vários deles, a maioria parou de jogar. As condições não eram as melhores, comíamos marmita, mas muitas vezes vinha estragada e, para ninguém ficar sem comer, dividíamos. Não tinha dinheiro para ir a um restaurante, por exemplo, ganhava 200 reais e ainda atrasava.

Fiquei no Itapirense até os 19 anos. Quando virei profissional fui para o Mineiros, da segunda divisão de Goiás: o lugar onde eu quase desisti do futebol. Ofereceram 1200 reais, mas quando chegou lá abaixaram para 550. Treinava separado, quando ia comer, tinha que esperar todos terminarem para ver se sobrava comida, e ainda precisava limpar o banheiro. Nunca contei isso pros meus pais, pois sabia que se contasse eles diriam pra voltar.

Dois amigos que foram comigo desistiram. Eu não queria desistir, em algum momento iria dar certo, não podia ir embora. No entanto, depois de um mês o treinador que me levou saiu do time e disseram que fariam o acerto comigo. Peguei mil reais e, como a passagem custava 200, mandei o restante todo pra minha mãe. Só me esqueci que a viagem tinha 18 horas e eu não teria dinheiro pra comer e nem pra ir de Campinas, onde o ônibus parava, até Mogi. Estava estressado com toda a situação. Por sorte, um amigo estava comigo e me emprestou dinheiro. O Corcel Indomável do meu pai acho que nem conseguiria chegar até Campinas.

Quando cheguei em casa, desci do ônibus e meu pai disse que tinha um teste no XV de Piracicaba pra mim. Chegando lá o teste duraria uma semana e não tinha cama pra eu dormir, mas disseram que arrumariam depois. Tudo bem, já tinha passado coisas piores. Estava muito frio no dia e eu fui tomar um banho. O banheiro era coletivo, todos os chuveiros lado a lado e o pessoal tomando banho tranquilo. Quando liguei o chuveiro tive uma surpresa: água gelada. Ainda perguntei se era normal aquilo e eles disseram que sim, que já tinham acostumado. Não daria certo.

Voltei pra minha cidade no dia seguinte e o meu antigo treinador do Itapirense tinha ido pro Brasilis, time de Águas de Lindóia, e me convidou. A estrutura era melhor, vários times da capital faziam pré-temporada lá. Assinei meu primeiro contrato e joguei por um ano como lateral-esquerdo. É curioso: ao final da temporada recebi uma proposta do Santos, mas naquele momento eu estava desanimado e não queria mais jogar futebol. Era uma época complicada, eu via meus amigos saindo, ganhando muito dinheiro e eu não conseguia fazer nada. Queria largar aquilo e ir trabalhar para ter dinheiro como eles e poder sair. Liguei pro meu pai e pedi para ele ir me buscar. Quando contei a ele que rejeitei uma proposta do Santos, time do meu coração, pela primeira vez na minha vida eu vi ele chorar. Foi o dia mais triste da minha vida.

Naquele momento eu estava jogando fora todo o esforço dos meus pais por alguns trocados a mais para sair com meus amigos, mas essa era minha decisão. Já que iria trabalhar, minha mãe começou a fazer meu currículo, eu nunca tinha feito, não fazia ideia. Ela perguntou: qual curso você tem? Nenhum. Qual sua experiência? Nenhuma, só terminei o terceiro colegial. Então ela disse que eu poderia trabalhar de servente de pedreiro. Eu disse pra ela que não aguentaria e ela respondeu: “Lógico que você aguenta, você não rejeitou uma proposta do Santos? Agora você vai aguentar qualquer serviço.”

No final do ano, minha irmã, que trabalhava em uma loja de sapatos, arrumou uma vaga de estoquista pra mim. Já não trabalhava no sol, então seria mais fácil. Das 7h às 22h para ganhar 800 reais. Eu queria sair com os amigos, mas trabalhando tanto tempo eu chegava cansado demais pra sair. Nunca vi tanta caixa na minha vida, mas não podia reclamar. Quando falava qualquer coisa, a resposta sempre era: “Você não quis jogar bola, agora arrume as caixas.”

Dos 800 reais, nem 50 me sobravam no final do mês. Eu não gostava de levar comida de casa para esquentar e então comia em uma lanchonete em frente à loja: duas coxinhas e um suco de laranja todo dia. No final do mês, fui pagar a conta e deixei quase todo o meu salário na lanchonete. Voltei atrás na minha decisão: iria jogar futebol.

Surgiu uma oportunidade no Guaçuano mesmo para jogar a Série A-3 do Campeonato Paulista. Fiquei de 2011 a 2013 no time da minha cidade. Fiz oito gols jogando como meia e no último jogo fiz um de letra. Já estava acertado com o Olímpia, mas nesse dia um cartola da Matonense me viu jogar e falou que não importava o quanto tinham me oferecido: ele oferecia o dobro. Não sabia nem onde era Matão, mas fui. Meu pai emprestou um carro e fomos assinar o contrato. Ganhei cinco mil na assinatura: nunca tinha visto tanto dinheiro na vida.

Fiquei na Matonense até 2015, disputamos Série A-2 do Paulista e caímos para a A-3. Então chegou a proposta do Botafogo de Ribeirão Preto. Pesquisei e vi que era Série A-1 do Paulista, aceitei na hora. Cheguei com 22 anos e fiquei três anos. Tenho um carinho muito grande pelo Botafogo, pela torcida e pelas pessoas que comandam o time. Um dia quero encerrar minha carreira lá.


No Botafogo fomos campeões da Série D e eu comecei a me destacar. No final do ano seguinte, na Série C, tive duas propostas: uma delas do Santos. Foi Deus me dando uma segunda chance ao erro que tinha cometido quando mais novo. Era pro Santos B, mas é o Santos, a diferença é uma grade que separa os times aqui no CT. Quando cheguei aqui para treinar, buzinei e o segurança olhou pra mim e perguntou o que eu queria. Disse que iria treinar e ele perguntou se eu era jogador mesmo. Pô, será que eu não tenho nenhuma pinta de jogador? Ele deixou eu entrar, mas ainda disse: “você não está me enganando não, né?”

Nosso time no Santos B era muito forte. Cada treino pra mim era o último, minha chance de fazer um bom trabalho e alguém me olhar. No começo desse ano recebi propostas de outros times, mas quando o William Machado assumiu, ele já me conhecia por ter transmitido alguns jogos do Botafogo e alertou o Jair Ventura. Ele me chamou, disse que tinham muitos jogadores na minha posição e que não poderia me inscrever no Paulista, mas tudo bem eu iria mostrar para ele nos treinos. Sou muito grato a ele. Esperei minha oportunidade, que acabou chegando em um momento que eu nem esperava: Copa Libertadores da América, na Vila Belmiro.


Cheguei em casa e contei que iria jogar. Eu não estava indo para os jogos e minha namorada nem acreditou. Disse pra minha mãe assistir. Quando acabou o jogo eu estava tão feliz que esqueci a aliança na Vila. Cheguei em casa sem aliança e já imagina, né? Eu estava tão feliz que parecia uma criança, ela até entendeu, mas eu tive que voltar correndo pro estádio. Sem sucesso: não consegui entrar. Até hoje não encontrei e nunca mais comprei outra. Falei pra minha namorada que iria comprar e ela disse que agora que eu perdi, ela queria uma de ouro. Saí no prejuízo… Aquele dia vai ficar marcado na minha vida, meu sonho de criança era jogar pelo Santos, meu time do coração.

A comemoração do primeiro gol pelo Peixe com o coração escondido. A namorada não gostou muito (Crédito: Ivan Storti/SantosFC)

Não costumo marcar muitos gols, mas sempre ficamos pensando como será o gostinho de fazer um gol. Antes do jogo contra o Vasco, o Cuca chegou em mim no vestiário, passou a perna na minha, passou o braço no meu e profetizou: “Hoje você vai marcar um gol”. Falou desse jeito. O Sánchez cruzou, a bola bateu na minha barriga e entrou. Fiz tanta comemoração que eu nem sei. Tinha combinado de fazer um coração pra minha namorada, mas fiz meio embaixo e nem deu pra ver. De novo tomei bronca, mas tá prometido que da próxima vez vou fazer o coração, se não daqui a pouco ela larga. No próximo jogo vou chegar no Cuca e fazer o ritual de novo, gostei dessa brincadeira aí.

Meu sonho agora é ter a cara no muro do CT. Sei que não é fácil e que pra chegar lá o Santos precisa conquistar títulos e quem sabe eu chegar à Seleção Brasileira. Agora que já realizei o sonho de jogar aqui, o próximo passo é fazer história. Por Diário do Peixe

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