No peito e na alma !

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terça-feira, 26 de janeiro de 2016

Ricardo Oliveira renega idolatria e diz: "Quero deixar um legado no Santos"


Em entrevista exclusiva ao GloboEsporte.com, centroavante de 35 anos diz que se vê como "um pai" para jovens do Peixe e que não se considera um ídolo do clube


Ricardo Oliveira voltou ao Santos no início de 2015 para receber R$ 50 mil por mês (Foto: Ricardo Saibun/Santos FC)

Antes de qualquer coisa, um refresco à sua memória: Ricardo Oliveira está em sua segunda passagem pelo Santos. Em 2015, aceitou um "contrato de risco", com salário baixo para seus padrões e bônus por produtividade enquanto o Peixe passava por uma das maiores crises financeiras de sua história. Foi artilheiro na campanha do título paulista e renovou seu contrato (mais adequado à sua fama). No segundo semestre, foi goleador do Brasileirão e ajudou o time a chegar à final da copa do Brasil. Como um paizão dos mais jovens do elenco, ajudou o clube a se reerguer. 

Por tudo isso, uma pergunta: Ricardo Oliveira é um ídolo do Santos? Para os torcedores, pode até ser. Para o jogador, não. Aliás, ele não quer esse rótulo. Aos 35 anos, beirando os 36, o camisa 9 do Peixe quer deixar um legado e ser lembrado daqui a anos não só pelo o que fez dentro de campo, mas sem idolatria.

Em entrevista ao GloboEsporte.com, o atacante, que passou pela Vila Belmiro também em 2003, disse entender que o torcedor espera títulos e boas atuações, mas garantiu que não consegue se preocupar apenas com isso no dia a dia. Ele quer ter a sensação de dever cumprido por ter ajudado jovens a ter uma boa carreira, por exemplo. E é isso que Ricardo Oliveira tem buscado fazer no Santos.

– Para o torcedor, talvez não (seja tão importante o papel fora de campo), porque ele espera resultado. Ele paga ingresso e vai lá incentivar. Para o torcedor, acho que o que menos importa é esse papel fora. Mas para mim é fundamental. Sou um jogador vivido, de convivências com atletas que tinham um futuro promissor e com vários atletas já consagrados, mas que, infelizmente, não cuidavam desse lado de aconselhar um jovem, dar um suporte, abraçar. Eu vi muitos falarem: “Eu não tenho por que fazer isso”. Então, não fico só nas palavras, porque elas têm o poder de convencer, mas o exemplo tem o poder de arrastar – disse. 


Talvez pareça difícil para o torcedor entender por que Ricardo Oliveira não quer ser ídolo do Santos, mas ele tem uma explicação. O atacante acha que, mais importante do que o rótulo, são as atitudes que vão fazê-lo ser lembrado pela torcida do Peixe. No CT Rei Pelé, por exemplo, ele chama todos pelo nome. O camisa 9 vê tudo isso como um sinal de respeito. 


– Nem todos os ídolos são respeitados. São ídolos porque conquistaram, fizeram parte de um grupo vencedor. E eu não estou em busca de ser um ídolo. Quero ser respeitado. Quero que as pessoas lembrem de mim como o cara que dava exemplo, corria, batalhava. O cara que quando o menino vinha da base, ele abraçava, não ignorava, não batia. É isso que eu quero. Tenho certeza de que estou conquistando isso aos poucos, com muito trabalho e exemplo. Ninguém vai tirar de mim e não dá para esconder que quando eu visto a camisa do Santos eu quero mais, quero mais e quero mais – falou.

Na segunda temporada seguida no Santos, Ricardo Oliveira garante estar melhor do que em 2015, promete não abrir não da briga por títulos e quer fazer muitos jovens se sentirem à vontade no time comandado pelo técnico Dorival Júnior. Abaixo, a entrevista exclusiva com o centroavante do Peixe:

GloboEsporte.com: Ricardo, em 2015 você chegou aqui depois de muito tempo fora, pegou toda a pré-temporada, mas ainda estava se readaptando ao futebol brasileiro. Como está você agora, começando 2016?
Ricardo Oliveira: o início de 2015 para mim foi muito sofrido. Foram muitos anos fora, cinco nos Emirados Árabes. Voltei, fiquei nove meses parado. Para entrar no ritmo, foi difícil. Ainda que estivesse em boa condição física, o nível de competição aqui é muito alto. Às vezes, não tinha aquele arranque, os gols não saíram nos primeiros jogos. Aí as coisas fluíram, e o ano foi muito positivo. Agora, meus números estão melhores do que no ano passado. Já adaptado novamente ao futebol brasileiro, tenho certeza de que as minhas condições são bem melhores. 

Ricardo Oliveira faz testes físicos no Santos durante pré-temporada (Foto: Ivan Storti / Santos FC)

E no que você já está melhor do que no ano passado? O que são esses números?
– Voltei com a capacidade muito melhor do que no ano passado, porque eu potencializo na musculação, e o trabalho aeróbico no campo eu já tenho. Isso me dá a capacidade para dar um estímulo atrás de outro. Toda hora eu estou fazendo um movimento, dando opção para o companheiro. O meu percentual de gordura, após as férias, estava mais ou menos igual ao do ano passado. Aí eu te falo: demorei para baixar esse percentual jogando em 2015. E agora, que nem começou a temporada, eu já baixei. Isso é muito positivo. 

Se o Ricardo Oliveira em 2015 teve tanta dificuldade e terminou o ano como artilheiro do Brasil e na Seleção, o que a torcida pode esperar em 2016?
– Eu acho que o torcedor vai esperar aquele Ricardo Oliveira do Paulista, do Brasileiro, artilheiro e finalizando a temporada na Seleção. E é isso que eu cobro de mim. Não aceito menos. Eu sei que sou capaz com meus companheiros. Sozinho, não. Eu acredito que nesta temporada vamos crescer muito mais do que conseguimos na temporada passada, porque é um time que já está há um ano junto, apesar de algumas peças importantes que saíram. Temos jogadores no elenco que são bons demais e vão suprir essas ausências. Vamos dar todo o suporte para que se sintam à vontade e rendam o esperado. E nosso time vai em busca de um futebol bonito.


Nós percebemos que nas entrevistas você fala com carinho do Santos, chama o time de “nosso”. Seu papel hoje é mais do que só jogar bola, fazer gols? Seu papel talvez seja tão importante fora de campo, quanto dentro?
– Olha... é uma pergunta muito interessante. Para o torcedor, talvez não, porque ele espera resultado lá dentro do campo. O que é certo, porque quando você veste a camisa do Santos, tem de dar resultado. O torcedor paga ingresso e vai lá incentivar. Para ele, acho que o que menos importa é esse papel fora. Mas para mim é fundamental, porque sou um jogador de 35, vou completar 36. Sou vivido, com várias experiências no futebol. Convivi com vários atletas já consagrados, mas que infelizmente não cuidavam desse lado de aconselhar um jovem, dar um suporte, abraçar. Eu vi muitos falarem: “eu não tenho por que fazer isso”. Eu entendo que é minha obrigação. Eu prezo muito por isso. Não só em campo, mas na vida. Isso sem negligenciar meu papel dentro de campo. Sei que quando entro para jogar, tenho de dar exemplo de vontade, tenho de correr, suar, jogar. Então, não fico só nas palavras, porque elas tem o poder de convencer, mas o exemplo tem o poder de arrastar. 

E como você faz para o menino te ouvir?
– O primeiro de tudo é que eu sou um cara que gosto de falar, olho no olho e quero saber o nome. Acho super deselegante, falta de respeito, falar com um menino: “ei, garoto”. Talvez, sabendo o nome, posso chamá-lo de garoto de uma forma mais carinhosa. Sei o nome de todos, inclusive dos que chegaram agora. Eu gosto de chamar pelo nome e fico observando. Agora, mesmo, estávamos treinando e tinha um menino treinando conosco. Procurei saber o nome dele. Ele estava treinando contra nós e eu o orientei: "Quando a bola vier de lá e você for se posicionar, faz assim, é melhor, porque senão você vai estar sob pressão". Ele não estava esperando por isso, mas o que aprendi na vida é isso. Você não pode pegar para você as coisas e morrer com elas. Passa para a frente, cara. Ajuda as pessoas. Faz com que elas cresçam. Estou falando de mim por que você está falando comigo, mas o Renato, o Elano, o David Braz e o Vanderlei fazem isso. Orientamos todos os meninos que sobem. A transição é muito difícil, não pense que é fácil, mas estamos aqui para dar todo o suporte.



Você acha que já é um ídolo do Santos? Porque isso é postura de ídolo...

– Não acho. Estou sendo muito sincero. Eu não estou em busca disso. O que eu quero é deixar um legado no Santos. Eu saí daqui em 2003 muito triste mesmo porque, infelizmente, cheguei na reta final da Libertadores lesionado, sem estar na minha perfeita forma física para ajudar como ajudei na campanha. Eu disse que queria voltar para marcar o nome, ter uma história legal. E o Santos me deu essa oportunidade ano passado. Eu fiz muitos gols, consegui ganhar o Paulista com meus companheiros, ser protagonista. Hoje sou um dos capitães do time. Ouvi muito durante o ano a torcida gritar meu nome com muita força, como ouvi muito pouco em 2003 quando cheguei. Aonde vou as pessoas me reconhecem. Acho isso muito legal. Não me considero um ídolo, mas sinto que existe um respeito por parte do torcedor.

Esse legado, de ajudar um menino, ser importante fora de campo, é mais importante do que só o rótulo de ídolo?
Eu acho, porque nem todos os ídolos são respeitados. Nem todos. São ídolos porque conquistaram, fizeram parte de um grupo vencedor. E eu não estou em busca de ser um ídolo. Quero ser respeitado. Quero que as pessoas lembrem de mim como o cara que dava exemplo, corria, batalhava. Quero deixar esse legado de um cara que veio, vestiu, honrou, se dedicou e ajudou na formação de outros atletas que estão passando por essa transição da base para o profissional e que no futuro serão ídolos.

Você, nitidamente, não é "apenas" um jogador do Santos, aquele que só treina e joga. O que você acha que é para o clube? Um conselheiro, um "pai" dos mais jovens?
– Eu tenho muita dificuldade de falar da minha pessoa, mas é fato que não sou só jogador. A minha cabeça é completamente voltada para meu trabalho, minha profissão. Eu saio de casa pensando: "Hoje vou treinar bem, me dedicar, vou fazer meu trabalho prévio". Durante o treino, vou olhando um, olhando outro. Aí a gente abraça, conversa, chama para tomar um café, conversa. Eu me sinto um pai também. Até os companheiros, muitos deles, falam que eu sou um pai. Porque é esse o cuidado que eu tenho. Quando um menino vem, joga e erra, e você fala: “Tenta de novo”. Aí ele erra de novo, e você fala: “Tenta de novo”. Se ele errar de novo, aí você fala: “Tenta de uma outra forma”, para que não fique marcado. Eu já vi ao contrário. Já vi outros caras apontarem o dedo, sem ajudar. Aí acaba matando o menino. Então, eu me sinto também pai de muitos deles, porque muitos vêm conversar comigo. 

Globoesporte.com

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