No peito e na alma !

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terça-feira, 3 de novembro de 2015

‘O Santos já saiu da UTI e hoje respira sem aparelhos’, afirma o ex-presidente Marcelo Teixeira



A grande fase de Lucas Lima, Ricardo Oliveira, Thiago Maia e companhia tem empolgado até o dirigente mais influente da Vila Belmiro: Marcelo Teixeira. Presidente durante 12 anos, sendo dez de forma consecutiva, de 1999 a 2009, o santista voltou a frequentar o estádio para acompanhar de perto o time que “dá mais prazer de se ver no Brasil hoje”. Em entrevista ao Blog, Teixeira avaliou os dez primeiros meses da gestão de Modesto Roma Jr., candidato bancado por ele. Falou também sobre Dorival Júnior e colocou o dedo em várias feridas abertas, como a venda de Neymar, a situação financeira do clube e processos como o de Leandro Damião. Por fim, contou que tinha acertado um estádio para o Santos em Diadema, no ano de 2009. 

BLOG_ Como avalia os dez primeiros meses da gestão de Modesto Roma Júnior?
MARCELO TEIXEIRA_ Ele foi muito bem ao contratar atletas identificados com o Santos, como Ricardo Oliveira e Elano. Eles passaram aos mais jovens o que é vestir a camisa do Santos. E a mescla entre juventude e experiência deu tão certo que o Santos é o campeão paulista e está bem no Brasileiro e na final da Copa do Brasil.

E no aspecto financeiro?
O Modesto enfrentou com coragem os problemas, já que não tinha cotas de TV e havia várias receitas antecipadas. Foram meses difíceis, mas ele reduziu a folha e colocou as contas em ordem. Seus antecessores deixaram quatro folhas atrasadas.

Teme que o bom momento do time cause uma debandada?
Acho que esse risco já passou. Houve assédio a Lucas Lima, Ricardo Oliveira, Thiago Maia, Gabigol, Geuvânio… e o Modesto prorrogou o contrato de quase todos (só Marquinhos Gabriel e Chiquinho ficam livres em dezembro). Os atletas entenderam que teriam mais futuro ficando aqui.

Então, está orgulhoso pela indicação do Modesto como seu candidato?
Até o momento, ele vem muito bem. Não só pelos resultados em campo, mas também pelas contratações pontuais. Sua gestão está sendo positiva.

Como vê a briga entre Santos e Neymar na Fifa?
Lamento muito. O pai dele fez contato comigo uns quatro meses atrás. Tentei fazer a ponte entre as partes, mas o Modesto e a diretoria entenderam que já havia um escritório de advocacia cuidando dessa ação. Nem houve o contato entre as partes. E acho que o Santos poderia se beneficiar desse encontro.

O senhor não iria à Justiça?
O Santos não possui vários documentos que o atleta e o pai têm. Acho que deveria haver conversa e, se não se chegasse a conclusão alguma, aí sim, buscaria outro caminho.

O Santos ficou com cerca de R$ 60 milhões dos R$ 284 milhões gastos pelo Barcelona. Foi um mau negócio?
Não sei se foi a pior venda da história do Santos, mas o Santos vendeu o Neymar muito, muito mal. E isso é consequência daquela carta liberando o atleta para iniciar negociações (Luis Alvaro de Oliveira permitiu ao pai de Neymar que buscasse clubes para o filho após 2014). Foi um erro estratégico gravíssimo.

Quem foi pior para o Santos: Luis Alvaro ou Odílio?
Reputo a administração de ambos como uma única. E com muitos problemas. Uma safra fantástica de jogadores caiu no colo deles e o retorno financeiro foi baixíssimo. Eles teriam de usar parte do dinheiro com as vendas para ampliar o CT e modernizar a Vila. Hoje, você vai ao CT e as televisões são as mesmas da minha época.

O Santos está muito atrás dos rivais em relação à estrutura?
Nós paramos no tempo. Eu me lembro de que o Andrés Sanchez (então presidente do Corinthians) vinha almoçar comigo no CT em 2008 e falava que um dia iria nos ultrapassar. E passou mesmo, assim como Palmeiras e São Paulo.

Onde foi parar o dinheiro das vendas de Neymar, Ganso, Rafael, Felipe Anderson, André? 
Pelo que eu soube, se investiu tudo na contratação de atletas. Teve jogador que chegou do exterior por R$ 5 milhões, e deu R$ 0 de retorno.

Qual a realidade financeira do Santos hoje?
O Santos já saiu da UTI e hoje respira sem aparelhos. Mas foi durante um bom tempo um paciente que estava entubado, adoentado. O que me preocupa é que houve um aumento terrível dos processos trabalhistas. Coisas muito altas, relacionadas até a atletas do futsal.

O processo do Leandro Damião é o maior risco?
Esse é o caso que mais me assusta. Os valores podem passar de R$ 100 milhões, porque o Santos terá um problema trabalhista, além de prejuízo com os direitos federativos e acordos com empresas. Isso é gravíssimo. Não quero nem imaginar. Eu rezo a Deus todos os dias por causa desse processo.

O Modesto pegou R$ 4 milhões emprestado com o senhor logo no primeiro mês de gestão. Ele já devolveu?
Sim. Esse empréstimo foi quitado em dois meses. Foi mais um socorro momentâneo, porque ele havia prometido quitar os salários atrasados dos atletas e dos funcionários.

E houve mais algum empréstimo de lá para cá?
Não, só esse mesmo. Não houve necessidade de outro socorro.

O senhor emprestou R$ 41 milhões ao Santos enquanto presidente e há um acordo para que o dinheiro seja devolvido até 2018. É verdade que o Modesto suspendeu o pagamento mensal de R$ 417 mil?
Tudo tem o seu tempo. Ele está pondo a casa em ordem. Já eu não estou preocupado com isso (a dívida). É a hora de ter tolerância, pois o Santos passa por um momento complicado. Se os santistas não se convencerem de que têm de apoiar…

O Dorival assumiu o Santos no 17 lugar no Brasileirão. Se tivesse iniciado o torneio, brigaria com o Corinthians?
Tudo tem seu momento. Não dá para esquecer que o Marcelo Fernandes e o Serginho foram bem e ganharam o Paulistão. Disputar o título seria muito difícil de qualquer jeito.

Qual o segredo do Dorival, já que o time é o mesmo, exceto pela saída do Robinho?
Ele mudou alguns jogadores e deu uma outra cara tática ao Santos. Para falar a verdade, o Dorival já tinha tido uma passagem muito positiva em 2010. Sua saída, inclusive, não foi benéfica (ele foi demitido após exigir uma punição pesada a Neymar, que se rebelou contra o treinador em campo).

O senhor entende que o título do Brasileirão seria difícil. E a Copa do Brasil?
Aí é diferente e a chance de título é muito grande. Hoje, o Santos é o time que dá mais prazer de se ver jogar. Temos uma equipe ofensiva e agressiva, voltada para o ataque.

Dá mais prazer do que o Corinthians?
Com certeza. O Corinthians é muito regular. O Grêmio teve alguns lampejos, mas a sensação do Brasil é o Santos. Do meio para frente, todos os nossos jogadores são muito fortes, tocam bem a bola, agridem…

Por qual jogador do atual elenco o senhor tem xodó?
Tenho uma identidade com o Ricardo Oliveira. Antes de voltar, ele ligou para mim. Assim como o Elano.

Qual foi a contratação mais trabalhosa da sua gestão?
A do Zé Roberto, em 2006. Eu tinha ido ao escritório do Juan Figer tratar de amistosos e o Zé Roberto estava na antessala. Ele havia ido bem na Copa do Mundo de 2006 e estava quase fechado com o São Paulo, onde fazia tratamento. Aí, começamos a conversar e chegaram os dirigentes do São Paulo. Mesmo assim, ele fechou com o Santos. E a relação com o São Paulo acabou ficando estremecida.

O Conselho Deliberativo do Santos já havia ficado tão dividido quanto atualmente?
Temos hoje pelo menos quatro facções políticas, algo atípico, porque o conselho sempre teve no máximo dois grupos. E essa fragmentação tão grande, em vez de ser positiva democraticamente, causa um clima ruim de revanchismo.

O senhor pode ser presidente do Santos de novo?
Acho muito difícil. Fiquei vários anos como presidente e já cumpri grande parte das minhas metas. No início, queria recuperar a parte externa da Vila, que vivia pichada. Depois, sonhava com um museu para o Santos. Tudo isso foi realizado, sem contar os títulos e grandes times. Além de tudo, gosto da renovação de dirigentes.

Mas o senhor quase foi candidato na última eleição.
Estive muito perto. Quando lancei o Modesto, foi para tirar o foco em cima do meu nome. E acho que, se eu tivesse aceitado, talvez o Santos teria menos grupos participando do processo eleitoral. Mas foi bom.

Dá palpites ao Modesto?
Sempre que possível, converso com ele. Mas não é todo dia. Estou à disposição, faço parte do Conselho Consultivo do clube e sou amigo dele.

Seu filho Marcelinho será candidato à presidência quando?
Ele caminha bem, tanto que já se tornou o conselheiro mais jovem da história do Santos, com apenas 18 anos. É um menino esforçado, que trabalha conosco na universidade, estuda… Mas ainda há um longo caminho a percorrer. Eu me tornei presidente com 27 anos e já me achava muito novo.

A ideia de construir um estádio novo perto da Vila Belmiro é boa?
Sei que esse projeto é no terreno do Portuários, mas sou defensor da ampliação da Vila. Deveríamos fazer como o Boca com a Bombonera, ou seja, aumentar a capacidade da Vila Belmiro para 35 mil pessoas. Não vejo sentido em fazer outro estádio em Santos.

O senhor assumiria o Pacaembu?
Não, por causa dos problemas no bairro. Há uma associação de moradores que impede a realização de shows, de eventos… Então, no dia que precisar, basta ir jogar lá e pagar aluguel. É mais fácil assim.

É verdade que o Santos quase construiu um estádio em Diadema?
Estivemos muito perto. Já havia até acordo com os investidores em 2009. O Santos não colocaria dinheiro e ganharia um estádio com padrão Fifa para 40 mil espectadores. Eu toquei tudo: acordo com a Prefeitura de Diadema, com a construtora (OAS). Só que entrou uma nova diretoria e deixou o projeto de lado. Até por isso, a OAS fechou com o Grêmio e fez o estádio em Porto Alegre.

Por Jorge Nicola

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